Mostrando postagens com marcador AACF; CaioF; PUCRS; associação amigos do caio fernando abreu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador AACF; CaioF; PUCRS; associação amigos do caio fernando abreu. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de dezembro de 2011

Parceria com História Empresarial Consultoria

Christian Ordoque, da História Empresarial, é um SUPER PARCEIRO da AACF! Ele e sua equipe desenvolvem um importante trabalho de pesquisa de conteúdo audio visual e textual para o SITE OFICIAL CAIO FERNANDO ABREU.

Até o momento, foram encontrados 135 trabalhos acadêmicos, em 242 unidades de ensino superior, de 10 estados do Brasil. Esse material fará parte do acervo digital que será disponibilizado no SITE OFICIAL do Caio e a AACF quer deixar aqui o seu SUPER obrigado.

---

Estados pesquisados: Sergipe, Tocantins, Santa Catarina, Rondônia,  Roraima, Paraíba,  Acre, Alagoas, Pernambuco e Amapá. Faltam os 7 grandes produtores acadêmicos do Brasil: RS, PR, MG, SP, RJ, ES e DF!

Você também pode colaborar e tornar esse projeto possível. Acesse: http://www.benfeitoria.com/caio!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Marcos Breda faz leitura de crônica de Caio Fernando Abreu


"Paris: toda vez que chego a Paris tenho um ritual particular. Depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até Notre-Dame. Acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do Ocidente. Sempre penso em Joana d’Arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de Santiago de Compostela, do qual Notre-Dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de História que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo.

Sempre acontecem coisas quando vou a Notre-Dame. Certa vez, encontrei um conhecido de Porto Alegre que não via pelo menos á2o anos. Outra, chegando de uma temporada penosa numa Londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da Guerra do Golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. Na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”,feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia aplaca, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo".

(O Estado de S. Paulo, 3/4/1994)


*Marcos Breda é ator, locutor, professor universitário, produtor teatral e foi muito amigo do nosso querido Caio Fernando Abreu.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma vida, uma obra - Exposição

No mês do aniversário do escritor Caio Fernando Abreu, não faltaram homenagens. O lançamento do Blog da Associação, o livro da escritora Amanda Costa (360 Graus - Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu) e uma belíssima exposição na Biblioteca Central da PUC do Rio Grande do Sul com parte do acervo do escritor e objetos pessoais.

Através da contribuição da História Empresarial a AACF teve acesso à exposição “Uma vida, uma obra” e compartilha com os admiradores de Caio F..
 

Como ele merece, a mostra ocupou lugar de destaque no salão. E claro: não só o Caio gente, mas algumas das suas várias facetas. De primeira, o escritor reconhecido: prêmios como o APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte estavam lá. O poeta: “Eu não escrevo poesia, tentei, mas não sou poeta. A poesia é linguagem demais elevada para mim.” Revelou-se que ele tentou. 116 escritos achados em seus diários e despertada uma vontade de folhear tudo... Mas só vontade!
 
Também havia o Caio cósmico, revelando que seus personagens eram dotados de muito mais que nomes e características físicas. Estudos de mapas astrais, runas e baralho de tarot mostravam que os astros tinham influência em sua vida.
A vertente do tradutor e do mundo seduzido: obras traduzidas, simbolizadas pela máquina de escrever, agendas, notebook, páginas datilografadas.
E por fim,  o lá de dentro: o escritor. Cadernos e mais cadernos, anotações, frases soltas, figuras. Trechos de textos já conhecidos. Fragmentos do que nunca foi publicado ou finalizado, mas ainda assim, o Caio F. que a gente (re)conhece.
E claro, fotos e mais fotos porque a gente não se cansa de vê-lo.

Pequenina, mas ainda assim, parte dele. Uma parte muito pessoal e extremamente importante. Afinal, nada mais singular que as anotações de próprio punho de um escritor. São uma parte da alma.

 
Ver essa preocupação e cuidado com a obra do Caio deixa a gente feliz. Também sabemos que isso pode ser maior. Mas em algum lugar tem que começar. Pode ter sido antes, é também aqui. Quem sabe termine na tela do seu computador. E melhor ainda é saber que existem mais pessoas torcendo e fazendo isso acontecer.


*Colaboração: Laura Papa